Pergunta 1
Da Fé
Ministro: Qual é o fim principal da vida humana?
Discípulo: Conhecer a Deus, por quem os homens foram criados.
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O Catecismo de Genebra, também conhecido como Catecismo de Calvino, foi preparado para a instrução doutrinária da Igreja em forma de diálogo entre ministro e discípulo. Esta página organiza o conteúdo por temas e exibe as perguntas em grupos de 20 por página.
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Perguntas 1 a 131
O fim principal da vida humana, o Credo dos Apóstolos, a pessoa e obra de Cristo, o Espírito Santo, a Igreja, a justificação e o arrependimento.
Da Fé
Ministro: Qual é o fim principal da vida humana?
Discípulo: Conhecer a Deus, por quem os homens foram criados.
Da Fé
Ministro: Que razão você tem para dizer isso?
Discípulo: Porque Deus nos criou e nos colocou neste mundo para ser glorificado em nós. Portanto, é justo que nossa vida, que procede dele, seja dedicada à sua glória.
Da Fé
Ministro: Qual é o bem supremo do homem?
Discípulo: O mesmo: conhecer a Deus e viver para a sua glória.
Da Fé
Ministro: Por que você considera isso o bem supremo?
Discípulo: Porque, sem esse conhecimento, nossa condição é pior do que a dos animais.
Da Fé
Ministro: Então, vemos claramente que nada pior pode acontecer ao homem do que não viver para Deus?
Discípulo: Assim é.
Da Fé
Ministro: Qual é o verdadeiro e correto conhecimento de Deus?
Discípulo: É conhecê-lo de tal modo que lhe seja dada a honra que lhe é devida.
Da Fé
Ministro: Qual é o modo correto de honrá-lo?
Discípulo: Colocar nele toda a nossa confiança; dedicar-nos a servi-lo durante toda a vida, obedecendo à sua vontade; invocá-lo em todas as nossas necessidades, buscando nele a salvação e todo bem; e reconhecê-lo, de coração e de boca, como o único autor de todas as bênçãos.
Da Fé
Ministro: Considerando esses pontos em ordem, qual é o primeiro?
Discípulo: Colocar toda a nossa confiança em Deus.
Da Fé
Ministro: Como podemos fazer isso?
Discípulo: Quando o conhecemos como todo-poderoso e perfeitamente bom.
Da Fé
Ministro: Isso é suficiente?
Discípulo: De modo algum.
Da Fé
Ministro: Por quê?
Discípulo: Porque somos indignos de que Deus exerça seu poder para nos ajudar e manifeste sua bondade para nos salvar.
Da Fé
Ministro: O que mais é necessário?
Discípulo: Que cada um de nós esteja persuadido de que Deus o ama, quer ser seu Pai e deseja ser o autor de sua salvação.
Da Fé
Ministro: De onde podemos saber isso?
Discípulo: De sua Palavra, na qual Deus nos revela sua misericórdia em Cristo e testemunha seu amor para conosco.
Da Fé
Ministro: Então, o fundamento e o início da confiança em Deus é conhecê-lo em Cristo?
Discípulo: Sim, inteiramente.
Da Fé
Ministro: Diga, em poucas palavras, qual é a suma desse conhecimento.
Discípulo: Ela está contida na Confissão de Fé comum a todos os cristãos, chamada geralmente de Credo dos Apóstolos, porque desde o princípio da Igreja foi recebida entre os fiéis e extraída fielmente do ensino apostólico.
Da Fé
Ministro: Recite essa confissão.
Discípulo: Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra; e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi concebido pelo Espírito Santo, nasceu da virgem Maria, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao inferno; ao terceiro dia ressuscitou dos mortos; subiu ao céu e está assentado à direita de Deus Pai, todo-poderoso, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos.
Creio no Espírito Santo; na santa Igreja universal; na comunhão dos santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; e na vida eterna. Amém.
Da Fé
Ministro: Para compreender melhor cada ponto, em quantas partes podemos dividir essa confissão?
Discípulo: Em quatro partes principais.
Da Fé
Ministro: Quais são elas?
Discípulo: A primeira trata de Deus Pai; a segunda, de Jesus Cristo, seu Filho, e da redenção do homem; a terceira, do Espírito Santo; e a quarta, da Igreja e das bênçãos divinas concedidas a ela.
Da Fé
Ministro: Visto que há somente um Deus, por que mencionamos Pai, Filho e Espírito Santo?
Discípulo: Porque, na única essência de Deus, devemos considerar o Pai como princípio e origem de todas as coisas; o Filho como sua sabedoria eterna; e o Espírito Santo como seu poder, que opera em todas as coisas e permanece eternamente nele.
Da Fé
Ministro: Então, não há absurdo em afirmar que há três pessoas em uma só divindade, sem que Deus seja dividido?
Discípulo: Exatamente.
Da Fé
Ministro: Recite agora a primeira parte.
Discípulo: Creio em Deus Pai, todo-poderoso, criador do céu e da terra.
Da Fé
Ministro: Por que você o chama de Pai?
Discípulo: Primeiramente, em relação a Cristo, que é sua sabedoria eterna, gerado antes de todos os tempos. E, como Deus é Pai de Jesus Cristo, concluímos que também é nosso Pai.
Da Fé
Ministro: Em que sentido você o chama de todo-poderoso?
Discípulo: Não apenas porque possui poder, mas porque governa todas as coisas por sua providência, determina tudo segundo sua vontade e dirige todas as criaturas conforme lhe apraz.
Da Fé
Ministro: Então você não imagina em Deus um poder ocioso, mas um poder sempre ativo?
Discípulo: Assim é. Nada acontece sem sua ação, permissão ou decreto.
Da Fé
Ministro: Por que acrescentamos: criador do céu e da terra?
Discípulo: Porque Deus se manifestou a nós por suas obras. Como não podemos compreender sua essência diretamente, o mundo é como um espelho no qual contemplamos aquilo que nos convém conhecer dele.
Da Fé
Ministro: Você entende por “céu e terra” todas as criaturas existentes?
Discípulo: Sim, certamente. Sob esses dois nomes estão incluídas todas as criaturas, pois todas são celestiais ou terrenas.
Da Fé
Ministro: Mas por que você chama Deus apenas de Criador, visto que é ainda mais excelente conservar e sustentar as criaturas em seu estado do que tê-las criado uma vez?
Discípulo: Esse termo não quer dizer que Deus criou suas obras de uma vez e depois abandonou o cuidado delas. Pelo contrário, devemos entender que, assim como o mundo foi criado por Deus, também é agora preservado por ele.
A terra e todas as demais coisas permanecem somente porque são sustentadas por sua energia e, por assim dizer, por sua mão. Além disso, como Deus tem todas as coisas debaixo de sua autoridade, segue-se que Ele é o supremo Governador e Senhor de tudo.
Portanto, ao confessarmos que Deus é o Criador do céu e da terra, entendemos que somente Ele, por sua sabedoria, bondade e poder, dirige todo o curso e ordem da natureza: envia chuva e seca, granizo e tempestades, bem como tempo calmo; por sua bondade torna a terra fértil e, quando retém sua mão, torna-a estéril. Dele procedem saúde e doença; todas as coisas estão sujeitas ao seu poder e obedecem ao seu comando.
Da Fé
Ministro: E quanto aos homens maus e aos demônios? Também estão debaixo dele?
Discípulo: Embora Deus não os governe por seu Espírito, ainda assim os refreia por seu poder, como por um freio, de modo que eles não podem mover-se senão até onde Ele permite. Mais ainda: Deus os faz servir à sua vontade, de modo que, contra a própria intenção deles, são forçados a executar aquilo que lhe parece bom.
Da Fé
Ministro: Que benefício você recebe do conhecimento dessa verdade?
Discípulo: Recebo grande benefício. Estaríamos em triste condição se os demônios e os homens ímpios pudessem agir sem a vontade de Deus; nossa mente jamais descansaria se pensássemos estar expostos ao capricho deles.
Só repousamos com segurança quando sabemos que eles são refreados pela vontade de Deus e mantidos sob limites, de modo que nada podem fazer sem sua permissão. Isso é ainda mais consolador porque Deus se comprometeu a ser nosso guardião e o Príncipe de nossa salvação.
Da Fé
Ministro: Passemos agora à segunda parte.
Discípulo: Ela consiste em crermos “em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor”.
Da Fé
Ministro: O que essa parte compreende principalmente?
Discípulo: Que o Filho de Deus é nosso Salvador. Ela também explica o modo pelo qual Ele nos redimiu da morte e nos adquiriu a vida.
Da Fé
Ministro: Qual é o significado do nome Jesus?
Discípulo: Ele tem o sentido de Salvador. Além disso, esse nome foi dado ao Filho de Deus pelo anjo, conforme a ordem do próprio Deus.
Da Fé
Ministro: Isso é mais importante do que se os homens lhe tivessem dado esse nome?
Discípulo: Certamente. Pois, se Deus quer que Ele seja chamado assim, então Ele verdadeiramente é Salvador.
Da Fé
Ministro: Qual é, então, a força do nome Cristo?
Discípulo: Por esse título, seu ofício é explicado ainda melhor, pois significa que Ele foi ungido pelo Pai para ser Rei, Sacerdote e Profeta.
Da Fé
Ministro: Como você sabe disso?
Discípulo: Primeiro, porque a Escritura aplica a unção a esses três ofícios. Segundo, porque ela frequentemente atribui a Cristo essas três funções.
Da Fé
Ministro: Com que tipo de óleo Ele foi ungido?
Discípulo: Não com óleo visível, como se fazia na consagração dos reis, sacerdotes e profetas antigos, mas com algo mais excelente: a graça do Espírito Santo, significada por aquela unção exterior.
Da Fé
Ministro: Qual é a natureza desse reino de Cristo?
Discípulo: É espiritual, contido na Palavra e no Espírito de Deus, os quais trazem consigo justiça e vida.
Da Fé
Ministro: E quanto ao sacerdócio?
Discípulo: É o ofício e privilégio de apresentar-se diante de Deus para obter graça e apaziguar sua ira por meio da oferta de um sacrifício aceitável a Ele.
Da Fé
Ministro: Em que sentido você chama Cristo de Profeta?
Discípulo: Porque, ao vir ao mundo, declarou-se embaixador e intérprete de Deus aos homens, com o propósito de pôr fim a todas as revelações e profecias, dando plena exposição da vontade de seu Pai.
Da Fé
Ministro: Você recebe algum benefício disso?
Discípulo: Sim. Todas essas coisas têm por finalidade o nosso bem. O Pai as concedeu a Cristo para que Ele as comunique a nós, e para que todos recebamos de sua plenitude.
Da Fé
Ministro: Explique isso um pouco mais.
Discípulo: Cristo foi cheio do Espírito Santo e recebeu perfeita abundância de todos os dons, a fim de reparti-los conosco, a cada um conforme a medida que o Pai sabe ser conveniente. Assim, dele, como única fonte, recebemos todas as bênçãos espirituais que possuímos.
Da Fé
Ministro: O que seu reino nos concede?
Discípulo: Por meio dele recebemos liberdade de consciência para viver piedosa e santamente. Providos de suas riquezas espirituais, também somos armados com poder suficiente para vencer os inimigos constantes de nossa alma: o pecado, o mundo, o diabo e a carne.
Da Fé
Ministro: Para que serve o ofício sacerdotal de Cristo?
Discípulo: Primeiro, por meio dele Cristo é o Mediador que nos reconcilia com o Pai. Segundo, por meio dele temos acesso ao Pai, de modo que também podemos comparecer com confiança diante de Deus e oferecer-lhe o sacrifício de nós mesmos e de tudo quanto temos. Assim, Cristo nos torna, por assim dizer, participantes de seu sacerdócio.
Da Fé
Ministro: Ainda resta o ofício profético.
Discípulo: Como esse ofício de ensino foi dado ao Filho de Deus em favor de seus servos, seu fim é iluminá-los com o verdadeiro conhecimento do Pai, instruí-los na verdade e fazê-los discípulos domésticos de Deus.
Da Fé
Ministro: Então, tudo o que você disse se resume nisto: o nome Cristo compreende três ofícios que o Pai concedeu ao Filho para transmitir a virtude e o fruto deles ao seu povo?
Discípulo: Sim, é isso.
Da Fé
Ministro: Por que você o chama de Filho único de Deus, visto que Deus também nos concede o título de filhos?
Discípulo: Somos filhos de Deus não por natureza, mas somente por adoção e graça, isto é, porque Deus nos coloca nessa condição. Mas o Senhor Jesus, gerado da substância do Pai e da mesma essência que o Pai, é chamado com toda propriedade de Filho único de Deus, pois somente Ele é Filho por natureza.
Da Fé
Ministro: Você quer dizer que essa honra pertence propriamente a Cristo por direito de natureza, enquanto é comunicada a nós por favor gratuito, visto que somos seus membros?
Discípulo: Exatamente. Por causa dessa comunicação, Ele é chamado o Primogênito entre muitos irmãos.
Da Fé
Ministro: Em que sentido você entende que Ele é “nosso Senhor”?
Discípulo: No sentido de que foi constituído pelo Pai para nos ter debaixo de seu poder, administrar o reino de Deus no céu e na terra, e ser Cabeça dos homens e dos anjos.
Da Fé
Ministro: O que significa aquilo que vem em seguida?
Discípulo: Mostra o modo pelo qual o Filho foi ungido pelo Pai para ser nosso Salvador: assumindo nossa natureza e realizando tudo o que era necessário para nossa salvação, como é enumerado a seguir.
Da Fé
Ministro: O que você entende por estas duas frases: “concebido pelo Espírito Santo” e “nascido da virgem Maria”?
Discípulo: Que Cristo foi formado no ventre da virgem, da substância dela, para ser a verdadeira descendência de Davi, como havia sido anunciado pelos profetas. Isso aconteceu pela ação miraculosa e secreta do Espírito Santo, sem união humana.
Da Fé
Ministro: Era importante que Ele assumisse nossa natureza?
Discípulo: Muito. Era necessário que a desobediência cometida pelo homem contra Deus fosse expiada também na natureza humana. Além disso, de nenhum outro modo Ele poderia ser nosso Mediador para fazer reconciliação entre Deus e o homem.
Da Fé
Ministro: Você afirma, então, que Cristo precisava tornar-se homem para realizar, por assim dizer, em nossa pessoa, a obra da salvação?
Discípulo: Sim. Devemos tomar dele aquilo que falta em nós, e isso não poderia ser feito de outro modo.
Da Fé
Ministro: Mas por que isso aconteceu pelo Espírito Santo, e não pela forma comum e ordinária de geração?
Discípulo: Porque a descendência humana está inteiramente corrompida. Era necessário que a operação do Espírito Santo interviesse na geração do Filho de Deus, para que Ele não fosse afetado por essa corrupção, mas fosse dotado da mais perfeita pureza.
Da Fé
Ministro: Aprendemos, então, que aquele que nos santifica é livre de toda mancha e possui pureza desde o ventre, de modo que é inteiramente consagrado a Deus e não contaminado por qualquer corrupção da raça humana?
Discípulo: É assim que entendo.
Da Fé
Ministro: Como Ele é nosso Senhor?
Discípulo: Ele foi constituído pelo Pai para nos governar e, tendo recebido o domínio de Deus no céu e na terra, ser reconhecido como Cabeça dos anjos e dos homens bons.
Da Fé
Ministro: Por que você passa diretamente do nascimento de Cristo para sua morte, deixando de lado toda a história de sua vida?
Discípulo: Porque aqui se trata apenas daquilo que pertence propriamente à nossa salvação, contendo, de certo modo, sua substância.
Da Fé
Ministro: Por que você não diz simplesmente que Ele morreu, mas acrescenta o nome do governador sob o qual sofreu?
Discípulo: Isso diz respeito não apenas à credibilidade do fato histórico, mas também nos ensina que sua morte esteve ligada a uma condenação judicial.
Da Fé
Ministro: Explique isso mais claramente.
Discípulo: Cristo morreu para cumprir a pena que era devida por nós e, desse modo, nos livrar dela. Como todos nós, pecadores, estávamos sujeitos ao juízo de Deus, Ele, para agir como nosso substituto, apresentou-se diante de um juiz terreno e foi condenado por sua boca, a fim de sermos absolvidos diante do tribunal celestial de Deus.
Da Fé
Ministro: Mas Pilatos o declara inocente e, portanto, não o condena como malfeitor. Como entender isso?
Discípulo: Devemos considerar as duas coisas. O juiz dá testemunho da inocência de Cristo para provar que Ele não sofreu por seus próprios delitos, mas pelos nossos. Ao mesmo tempo, Cristo é formalmente condenado pela sentença desse mesmo juiz, para deixar claro que suportou a sentença que merecíamos, como nosso fiador, livrando-nos da culpa.
Da Fé
Ministro: Bem respondido. Se Ele fosse pecador, não seria fiador adequado para pagar a pena do pecado de outro; e, ainda assim, para que sua condenação obtivesse nossa absolvição, era necessário que fosse contado entre os transgressores?
Discípulo: Entendo assim.
Da Fé
Ministro: Há maior importância no fato de Ele ter sido crucificado do que se tivesse sofrido outro tipo de morte?
Discípulo: Sim, muito maior. Paulo nos lembra que Cristo foi pendurado no madeiro para tomar sobre si a nossa maldição e nos livrar dela, pois esse tipo de morte era marcado por maldição.
Da Fé
Ministro: Isso não ofende o Filho de Deus, ao dizer que Ele foi submetido à maldição diante de Deus?
Discípulo: De modo algum. Ao suportá-la, Ele a aboliu. Contudo, não deixou de ser bendito, para que pudesse nos visitar com sua bênção.
Da Fé
Ministro: Prossiga.
Discípulo: Como a morte era a punição imposta ao homem por causa do pecado, o Filho de Deus a suportou e, suportando-a, venceu-a. Para tornar ainda mais claro que Ele sofreu morte verdadeira, quis ser colocado no sepulcro como os demais homens.
Da Fé
Ministro: Mas parece que nada recebemos dessa vitória, já que ainda morremos.
Discípulo: Isso não impede o benefício. Para os crentes, a morte já não é outra coisa senão uma passagem para uma vida melhor.
Da Fé
Ministro: Segue-se, então, que a morte não deve mais ser temida como algo terrível, mas que devemos seguir com ânimo firme a Cristo, nosso guia, pois, assim como Ele não pereceu na morte, também não permitirá que pereçamos?
Discípulo: Assim devemos agir.
Da Fé
Ministro: Logo em seguida se acrescenta: “desceu ao inferno”. O que isso significa?
Discípulo: Significa que Ele não apenas suportou a morte comum, isto é, a separação da alma e do corpo, mas também as dores da morte. Por essa expressão, entendo as terríveis angústias pelas quais sua alma foi traspassada.
Da Fé
Ministro: Explique a causa e o modo disso.
Discípulo: Como Cristo se apresentou diante do tribunal de Deus para satisfazer pelos pecadores, foi necessário que sofresse profunda angústia de consciência, como se tivesse sido abandonado por Deus, ou como se Deus lhe fosse contrário. Ele estava nessa angústia quando clamou: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”.
Da Fé
Ministro: Então o Pai estava irado contra Ele?
Discípulo: De modo algum. Mas o Pai exerceu essa severidade contra Ele em cumprimento do que fora anunciado por Isaías: que Ele foi ferido por Deus por causa de nossos pecados e moído por nossas transgressões.
Da Fé
Ministro: Mas, sendo Ele Deus, como poderia ser tomado por tal temor, como se estivesse abandonado por Deus?
Discípulo: Devemos afirmar que isso aconteceu quanto aos sentimentos de sua natureza humana. Para que isso ocorresse, sua divindade ficou, por algum tempo, como que velada, isto é, não manifestou sua força.
Da Fé
Ministro: Como, por outro lado, Cristo, que é a salvação do mundo, pôde estar sujeito a essa condenação?
Discípulo: Ele não a suportou para permanecer debaixo dela. Embora tenha sido tomado pelos terrores mencionados, não foi vencido por eles. Antes, lutando contra o poder do inferno, Ele o subjugou e esmagou.
Da Fé
Ministro: Daí concluímos que a angústia de consciência suportada por Cristo difere daquela que atormenta os pecadores perseguidos pela mão de um Deus irado. Pois o que nele foi temporário é perpétuo neles, e o que nele foi apenas a picada de um ferrão é neles como espada mortal que fere o coração?
Discípulo: Assim é. O Filho de Deus, cercado por essa angústia, não deixou de esperar no Pai. Mas os pecadores condenados pela justiça de Deus caem em desespero, murmuram contra Ele e até prorrompem em blasfêmias.
Da Fé
Ministro: Podemos concluir daí que benefício os crentes recebem da morte de Cristo?
Discípulo: Facilmente. Primeiro, vemos que ela é o sacrifício pelo qual Cristo expiou nossos pecados diante de Deus e, assim, apaziguando a ira divina, restaurou-nos ao favor do Pai.
Segundo, seu sangue é uma lavagem pela qual nossas almas são purificadas de todas as manchas. Por fim, a lembrança de nossos pecados foi apagada, para que não volte à presença de Deus; assim, o escrito de dívida que estabelecia nossa culpa foi removido e cancelado.
Da Fé
Ministro: A morte de Cristo não nos concede nenhuma outra vantagem?
Discípulo: Sim. Por seu benefício, se somos membros de Cristo, nosso velho homem é crucificado, e o corpo do pecado é destruído, de modo que os desejos da carne corrompida já não reinem em nós.
Da Fé
Ministro: Prossiga com os demais artigos.
Discípulo: O artigo seguinte é: “Ao terceiro dia ressuscitou dos mortos”. Por ele, Cristo declarou-se vencedor do pecado e da morte. Por sua ressurreição, tragou a morte, rompeu os laços do diabo e destruiu todo o seu poder.
Da Fé
Ministro: Quantos são os benefícios que resultam para nós da ressurreição?
Discípulo: São três. Primeiro, por ela a justiça foi adquirida para nós. Segundo, ela é penhor seguro de nossa imortalidade. Terceiro, já agora, por sua virtude, somos ressuscitados para novidade de vida, a fim de obedecermos à vontade de Deus vivendo de modo puro e santo.
Da Fé
Ministro: Continuemos com o restante.
Discípulo: “Subiu ao céu”.
Da Fé
Ministro: Ele subiu de tal modo que já não está mais na terra?
Discípulo: Sim. Depois de cumprir tudo aquilo que o Pai lhe havia dado para realizar em favor de nossa salvação, não havia necessidade de permanecer mais tempo na terra.
Da Fé
Ministro: Que benefício recebemos da ascensão de Cristo?
Discípulo: Recebemos duplo benefício. Primeiro, visto que Cristo entrou no céu em nosso nome, assim como havia descido à terra por nossa causa, Ele abriu para nós o acesso ao céu, cuja porta estava fechada por causa do pecado.
Segundo, Ele comparece diante de Deus como nosso Advogado e Intercessor.
Da Fé
Ministro: Mas Cristo, ao ir para o céu, afastou-se de nós, de modo que deixou de estar conosco?
Discípulo: De maneira nenhuma. Pelo contrário, Ele prometeu estar conosco todos os dias, até o fim do mundo.
Da Fé
Ministro: Quando dizemos que Cristo habita conosco, devemos entender que Ele está corporalmente presente?
Discípulo: Não. Uma coisa é o corpo de Cristo, recebido no céu; outra é sua virtude e poder, que se difundem por toda parte.
Da Fé
Ministro: Em que sentido você diz que Cristo “está assentado à direita do Pai”?
Discípulo: Essas palavras significam que o Pai lhe concedeu domínio sobre o céu e a terra, de modo que Ele governa todas as coisas.
Da Fé
Ministro: O que significam “direita” e “assentado”?
Discípulo: É uma figura tomada dos príncipes, que costumam colocar à sua direita aqueles a quem constituem como representantes de sua autoridade.
Da Fé
Ministro: Então você quer dizer o mesmo que Paulo ensina: que Cristo foi constituído Cabeça da Igreja, elevado acima de todo principado e recebeu um nome acima de todo nome?
Discípulo: Sim, é isso.
Da Fé
Ministro: Passemos adiante.
Discípulo: “De onde há de vir para julgar os vivos e os mortos”. Isso quer dizer que Ele virá visivelmente do céu para julgar o mundo, assim como foi visto subindo ao céu.
Da Fé
Ministro: Como o dia do juízo será somente no fim do mundo, como você afirma que alguns estarão vivos, se está ordenado aos homens morrerem uma só vez?
Discípulo: Paulo responde a isso quando ensina que os que estiverem vivos naquele dia serão transformados subitamente, de modo que a corrupção da carne seja abolida e eles se revistam de incorruptibilidade.
Da Fé
Ministro: Então você entende que essa transformação será como uma morte, isto é, a remoção da natureza anterior e o início de uma nova condição?
Discípulo: Esse é o meu entendimento.
Da Fé
Ministro: Traz alegria à nossa consciência saber que Cristo um dia será o juiz do mundo?
Discípulo: Sim, uma alegria singular, pois sabemos com certeza que Ele virá para nossa salvação.
Da Fé
Ministro: Então não devemos tremer diante desse juízo como se ele nos enchesse de terror?
Discípulo: Não. Estaremos diante do tribunal daquele que é também nosso Advogado e que nos tomou sob sua fidelidade e proteção.
Da Fé
Ministro: Passemos agora à terceira parte.
Discípulo: Ela trata da fé no Espírito Santo.
Da Fé
Ministro: O que aprendemos por meio dessa parte?
Discípulo: Aprendemos que Deus, assim como nos redimiu e salvou por seu Filho, também nos torna participantes dessa redenção e salvação por meio de seu Espírito.
Da Fé
Ministro: Como isso acontece?
Discípulo: Assim como temos purificação no sangue de Cristo, nossas consciências precisam ser aspergidas por esse sangue para serem lavadas.
Da Fé
Ministro: Isso precisa de uma explicação mais clara.
Discípulo: Quero dizer que o Espírito de Deus, habitando em nossos corações, faz-nos sentir a virtude de Cristo. Quando nossa mente compreende os benefícios de Cristo, isso ocorre pela iluminação do Espírito Santo; e quando esses benefícios são selados em nosso coração, isso também se deve à sua persuasão.
Em resumo, somente Ele abre espaço em nós para recebermos tais benefícios. Ele nos regenera e faz de nós novas criaturas. Portanto, todos os dons oferecidos em Cristo são recebidos por nós mediante a ação do Espírito.
Da Fé
Ministro: Prossigamos.
Discípulo: Vem agora a quarta parte, na qual confessamos que cremos na santa Igreja universal.
Da Fé
Ministro: O que é a Igreja?
Discípulo: É o corpo e a sociedade dos crentes, os quais Deus predestinou para a vida eterna.
Da Fé
Ministro: É necessário crer também neste artigo?
Discípulo: Sim, certamente, se não quisermos tornar sem efeito a morte de Cristo e desprezar tudo o que foi dito até aqui. O resultado de tudo isso é que há uma Igreja.
Da Fé
Ministro: Você quer dizer que antes tratamos da causa da salvação, mostrando seu fundamento nos méritos e na intercessão de Cristo, pelos quais somos recebidos no favor de Deus, e que essa graça é confirmada em nós pelo Espírito. Agora, porém, estamos explicando o efeito dessas coisas, para que a nossa fé seja confirmada pelos fatos?
Discípulo: Sim, é isso.
Da Fé
Ministro: Em que sentido você chama a Igreja de santa?
Discípulo: Todos os que Deus escolheu, Ele também justifica e forma para santidade e inocência de vida, a fim de que sua glória seja manifestada neles. É isso que Paulo ensina ao dizer que Cristo santificou a Igreja que redimiu, para que ela fosse gloriosa e sem mancha.
Da Fé
Ministro: O que significa chamá-la de católica ou universal?
Discípulo: Significa que, assim como todos os crentes têm uma só Cabeça, também devem estar unidos em um só corpo. Assim, a Igreja espalhada por todo o mundo é uma só, e não muitas.
Da Fé
Ministro: E qual é o sentido do que se segue, sobre a comunhão dos santos?
Discípulo: Essa expressão esclarece ainda mais a unidade existente entre os membros da Igreja. Também indica que todos os benefícios que Deus concede à Igreja visam ao bem comum de todos, visto que todos têm comunhão uns com os outros.
Da Fé
Ministro: Essa santidade que você atribui à Igreja já é perfeita?
Discípulo: Ainda não, enquanto ela milita neste mundo. A Igreja sempre sofre fraquezas e nunca será completamente purificada dos resquícios do pecado até estar plenamente unida a Cristo, sua Cabeça, por quem é santificada.
Da Fé
Ministro: Essa Igreja pode ser conhecida de outro modo além da fé?
Discípulo: Existe, de fato, uma Igreja visível de Deus, descrita por certos sinais e marcas. Porém, aqui falamos propriamente da assembleia daqueles que Deus adotou para a salvação por sua eleição secreta. Essa Igreja nem sempre é visível aos olhos nem discernível por sinais exteriores.
Da Fé
Ministro: O que vem em seguida?
Discípulo: Creio na “remissão dos pecados”.
Da Fé
Ministro: Que sentido você dá à palavra remissão?
Discípulo: Que Deus, por sua bondade gratuita, perdoa os pecados dos crentes, de modo que eles não sejam levados a juízo nem tenham deles exigida a pena.
Da Fé
Ministro: Daí se segue que não é por satisfação própria que merecemos o perdão dos pecados que recebemos do Senhor?
Discípulo: Exatamente. Somente Cristo satisfez a justiça divina, pagando a pena.
Da Fé
Ministro: Por que você acrescenta a remissão dos pecados à Igreja?
Discípulo: Porque ninguém a obtém sem antes estar unido ao povo de Deus, perseverando na unidade do corpo de Cristo até o fim e, desse modo, demonstrando ser verdadeiro membro da Igreja.
Da Fé
Ministro: Assim você conclui que fora da Igreja não há senão ruína e condenação?
Discípulo: Certamente. Aqueles que se separam do corpo de Cristo e rompem sua unidade por facção são cortados de toda esperança de salvação enquanto permanecem nesse cisma, ainda que por pouco tempo.
Da Fé
Ministro: Repita o restante.
Discípulo: Creio na “ressurreição do corpo e na vida eterna”.
Da Fé
Ministro: Com que finalidade esse artigo foi colocado na Confissão de Fé?
Discípulo: Para nos lembrar que nossa felicidade não está situada na terra. Esse conhecimento tem dupla utilidade.
Primeiro, ensina-nos a viver neste mundo como estrangeiros, pensando continuamente em nossa partida e não permitindo que nosso coração se prenda às coisas terrenas. Segundo, ainda que o fruto da graça de Cristo em nós esteja oculto aos nossos olhos, não devemos desanimar, mas esperar pacientemente pelo dia da revelação.
Da Fé
Ministro: Em que ordem ocorrerá essa ressurreição?
Discípulo: Aqueles que já morreram receberão novamente seus corpos, os mesmos de antes, mas revestidos de nova qualidade, isto é, não mais sujeitos à morte ou à corrupção. Quanto aos que estiverem vivos, Deus os transformará milagrosamente de modo repentino.
Da Fé
Ministro: Isso será comum aos justos e aos ímpios?
Discípulo: Haverá uma só ressurreição de todos, mas a condição será diferente: uns ressuscitarão para salvação e bem-aventurança; outros, para morte e extrema miséria.
Da Fé
Ministro: Por que, então, menciona-se aqui apenas a vida eterna, sem falar do inferno?
Discípulo: Porque aqui se introduz somente aquilo que serve de consolação às mentes piedosas. Por isso, são enumeradas apenas as recompensas que o Senhor preparou para seus servos, sem acrescentar a condenação dos ímpios, que sabemos serem estranhos ao Reino de Deus.
Da Fé
Ministro: Como agora entendemos o fundamento sobre o qual a fé deve descansar, será fácil extrair daí uma verdadeira definição de fé.
Discípulo: Sim. A fé pode ser definida como conhecimento seguro e firme da boa vontade paternal de Deus para conosco, conforme Ele declara no Evangelho que, por causa de Cristo, deseja ser nosso Pai e Salvador.
Da Fé
Ministro: Concebemos a fé por nós mesmos ou a recebemos de Deus?
Discípulo: A Escritura ensina que ela é dom especial de Deus, e a experiência confirma isso.
Da Fé
Ministro: Que experiência você quer dizer?
Discípulo: Nossa mente é rude demais para compreender a sabedoria espiritual de Deus revelada pela fé. Nosso coração também é inclinado demais à desconfiança ou à confiança perversa em nós mesmos e nas criaturas, para repousar espontaneamente em Deus.
Mas o Espírito Santo, por sua iluminação, torna-nos capazes de entender aquilo que, de outro modo, excederia nossa capacidade, e forma em nós uma firme persuasão, selando as promessas da salvação em nosso coração.
Da Fé
Ministro: Que benefício recebemos dessa fé, uma vez que a obtemos?
Discípulo: Ela nos justifica diante de Deus; e essa justificação nos torna herdeiros da vida eterna.
Da Fé
Ministro: Mas os homens não são justificados por boas obras quando procuram agradar a Deus vivendo de modo inocente e santo?
Discípulo: Se alguém pudesse ser encontrado perfeito, poderia ser considerado justo. Mas, como todos somos pecadores e culpados diante de Deus de muitas maneiras, precisamos buscar em outro lugar a dignidade que nos reconcilie com Ele.
Da Fé
Ministro: Todas as obras dos homens são tão vis e sem valor que não podem merecer o favor de Deus?
Discípulo: Primeiramente, todas as obras que procedem de nós, de modo que possam ser chamadas propriamente nossas, são corrompidas. Por isso, nada podem fazer senão desagradar a Deus e ser rejeitadas por Ele.
Da Fé
Ministro: Então você afirma que, antes de nascermos de novo e sermos renovados pelo Espírito de Deus, nada podemos fazer senão pecar, assim como uma árvore má só pode produzir maus frutos?
Discípulo: Sim, inteiramente. Seja qual for a aparência das obras aos olhos dos homens, elas são más enquanto o coração, que Deus contempla principalmente, permanece depravado.
Da Fé
Ministro: Daí você conclui que não podemos, por quaisquer méritos, antecipar Deus ou provocar sua bondade; ao contrário, todas as obras que tentamos realizar nos sujeitam à sua ira e condenação?
Discípulo: Sim. Portanto, a misericórdia pura, sem consideração às obras, nos acolhe e aceita gratuitamente em Cristo, atribuindo-nos sua justiça como se fosse nossa e não nos imputando os nossos pecados.
Da Fé
Ministro: De que modo, então, você diz que somos justificados pela fé?
Discípulo: Porque, ao abraçarmos as promessas do Evangelho com segura confiança do coração, recebemos, por assim dizer, a posse da justiça de Cristo.
Da Fé
Ministro: Então este é o seu pensamento: assim como a justiça nos é oferecida no Evangelho, nós a recebemos pela fé?
Discípulo: Sim, é isso.
Da Fé
Ministro: Mas, depois de sermos acolhidos por Deus, as obras que fazemos sob a direção do Espírito Santo não são aceitas por Ele?
Discípulo: Elas lhe agradam, não por causa de sua própria dignidade, mas porque Deus, em sua liberalidade, as honra com seu favor.
Da Fé
Ministro: Mas, visto que procedem do Espírito Santo, elas não merecem favor?
Discípulo: Elas ainda estão sempre misturadas com alguma impureza proveniente da fraqueza da carne, e por isso são manchadas.
Da Fé
Ministro: De onde, então, ou como acontece que elas agradam a Deus?
Discípulo: Somente a fé obtém favor para elas. Pela fé descansamos com firme confiança no fato de que Deus não deseja examiná-las por sua regra estrita, mas cobre seus defeitos e impurezas na pureza de Cristo, considerando-as como se fossem absolutamente perfeitas.
Da Fé
Ministro: Podemos concluir disso que o cristão é justificado pelas obras depois de chamado por Deus, ou que, pelo mérito das obras, torna-se amado por Deus, cujo amor é vida eterna para nós?
Discípulo: De modo nenhum. Antes, sustentamos o que está escrito: ninguém pode ser justificado diante de Deus. Por isso oramos: “Não entres em juízo com teu servo”.
Da Fé
Ministro: Então não devemos pensar que as boas obras dos crentes são inúteis?
Discípulo: Certamente não. Pois Deus não promete em vão recompensá-las, tanto nesta vida como na vida futura. Contudo, essa recompensa procede do amor gratuito de Deus como sua fonte, pois Ele primeiro nos recebe como filhos e, depois, sepultando a lembrança dos vícios que procedem de nós, visita-nos com seu favor.
Da Fé
Ministro: Mas essa justiça pode ser separada das boas obras, de modo que aquele que a possui fique vazio delas?
Discípulo: Isso não pode acontecer. Quando recebemos Cristo pela fé, como Ele nos é oferecido, Ele não apenas promete libertação da morte e reconciliação com Deus, mas também o dom do Espírito Santo, pelo qual somos regenerados para novidade de vida. Essas coisas precisam estar unidas, para que Cristo não seja dividido de si mesmo.
Da Fé
Ministro: Segue-se, então, que a fé é a raiz da qual brotam todas as boas obras, longe de nos afastar do zelo por elas?
Discípulo: Sim. Por isso, toda a doutrina do Evangelho pode ser resumida em dois ramos: fé e arrependimento.
Da Fé
Ministro: O que é arrependimento?
Discípulo: É o descontentamento e ódio contra o pecado, juntamente com o amor pela justiça, procedentes do temor de Deus. Essas coisas nos conduzem à autonegação e à mortificação da carne, para que nos entreguemos à direção do Espírito de Deus e ajustemos todas as ações de nossa vida à obediência da vontade divina.
Da Fé
Ministro: Mas esse segundo ramo já estava naquela divisão apresentada no início, quando você mostrou o modo correto de adorar a Deus.
Discípulo: É verdade. Ao mesmo tempo, também foi acrescentado que a regra verdadeira e legítima para adorar a Deus é obedecer à sua vontade.
Da Fé
Ministro: Por quê?
Discípulo: Porque o único culto que Deus aprova não é aquele que nos agrada inventar, mas aquele que Ele mesmo prescreveu por sua autoridade.
Perguntas 132 a 225
A regra de vida dada por Deus, a primeira e a segunda tábua da Lei, o amor a Deus e ao próximo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é a regra de vida que Deus nos deu?
Discípulo: A sua Lei.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que ela contém?
Discípulo: Ela consiste em duas partes: a primeira contém quatro mandamentos, e a segunda contém seis. Assim, toda a Lei consiste em dez mandamentos.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Quem é o autor dessa divisão?
Discípulo: O próprio Deus, que entregou a Lei a Moisés escrita em duas tábuas e depois declarou que ela estava resumida em dez palavras ou sentenças.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é o assunto da primeira tábua?
Discípulo: Os deveres de piedade para com Deus.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: E o assunto da segunda?
Discípulo: Como devemos agir para com os homens e o que devemos a eles.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Recite o primeiro mandamento.
Discípulo: Ouve, ó Israel: Eu sou o Senhor, teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão. Não terás outros deuses diante de mim.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Explique agora o sentido dessas palavras.
Discípulo: Primeiro, Deus faz uma espécie de prefácio a toda a Lei. Quando se chama Senhor, reivindica o direito e a autoridade de ordenar. Depois, para tornar sua Lei favorável a nós, acrescenta que é nosso Deus. Essas palavras têm o mesmo sentido que se Ele se chamasse nosso Preservador. E, visto que nos concede tal favor, é justo que nos mostremos um povo obediente.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Mas aquilo que Ele acrescenta sobre a libertação do Egito não se aplica especialmente ao povo de Israel?
Discípulo: Admito que sim quanto ao ato histórico em si. Contudo, há outro tipo de libertação que se aplica igualmente a todos: Deus nos libertou da escravidão espiritual do pecado e da tirania do diabo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que Deus menciona essa libertação no prefácio da Lei?
Discípulo: Para nos lembrar que seremos culpados da maior ingratidão se não nos dedicarmos inteiramente à obediência a Ele.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que Deus exige neste primeiro mandamento?
Discípulo: Que conservemos sua honra inteira e exclusivamente para Ele, sem transferir parte alguma dela a outro.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é a honra peculiar a Deus, que não se pode transferir a outro?
Discípulo: Adorá-lo, colocar nele nossa confiança, invocá-lo e, em resumo, prestar-lhe toda reverência adequada à sua majestade.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que se acrescenta: “diante de mim”?
Discípulo: Porque nada está tão oculto que escape a Deus; Ele é discernidor e juiz dos pensamentos secretos. Assim, Ele requer não apenas honra exterior, mas verdadeira piedade do coração.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Passemos ao segundo mandamento.
Discípulo: Não farás para ti imagem de escultura, nem forma alguma daquilo que está em cima nos céus, embaixo na terra ou nas águas debaixo da terra. Não as adorarás nem lhes prestarás culto.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Esse mandamento proíbe completamente fazer esculturas ou pinturas?
Discípulo: Não. Ele apenas proíbe fazer representações com o propósito de representar ou adorar a Deus.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que é ilícito representar Deus por forma visível?
Discípulo: Porque não há semelhança entre Deus, que é Espírito eterno e incompreensível, e uma figura corpórea, corruptível e sem vida.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Então você entende que se ofende a majestade de Deus quando Ele é representado desse modo?
Discípulo: Sim, essa é a minha convicção.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Que tipo de culto é condenado aqui?
Discípulo: Quando alguém se volta a uma estátua ou imagem com intenção de orar, prostra-se diante dela ou lhe presta honra por genuflexão ou outros sinais, como se Deus ali se representasse a nós.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Então não devemos entender que todo tipo de pintura ou escultura é condenado por essas palavras. Somos proibidos apenas de fazer imagens para buscar ou adorar Deus nelas, ou de adorá-las em honra de Deus, ou ainda de abusar delas de qualquer modo por superstição e idolatria?
Discípulo: Sim, é isso.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: A que finalidade devemos referir este mandamento?
Discípulo: Assim como no mandamento anterior Deus declarou que somente Ele deve ser adorado e servido, agora mostra qual é a forma correta de culto, para nos afastar de toda superstição e de outras imaginações viciosas e carnais.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Prossigamos.
Discípulo: Deus acrescenta a sanção de que Ele é o Senhor nosso Deus, forte e zeloso, que visita a iniquidade dos pais nos filhos daqueles que o odeiam, até a terceira e quarta geração.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que Ele menciona sua força?
Discípulo: Para indicar que possui poder suficiente para vindicar sua glória.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que Ele indica pelo termo “zeloso”?
Discípulo: Que não suporta rival ou companheiro. Assim como se entregou a nós por sua infinita bondade, também deseja que sejamos inteiramente seus. A pureza de nossa alma consiste em ser dedicada a Ele e permanecer unida a Ele; por outro lado, ela é contaminada pela idolatria quando se desvia dele para a superstição.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Em que sentido se diz que Deus visita a iniquidade dos pais nos filhos?
Discípulo: Para nos causar maior temor, Deus ameaça não apenas punir os que o ofendem, mas também que sua descendência será atingida pela maldição.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: É compatível com a justiça de Deus punir alguém pela culpa de outro?
Discípulo: Se considerarmos a condição da humanidade, a questão fica respondida. Por natureza, todos estamos sujeitos à maldição, e nada temos de que reclamar quando Deus nos deixa nessa condição. Além disso, assim como Ele demonstra seu amor aos justos abençoando sua posteridade, também executa sua vingança contra os ímpios privando seus filhos dessa bênção.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Continue.
Discípulo: Para nos atrair por sua bondade, Deus promete mostrar misericórdia a todos os que o amam e observam seus mandamentos, até mil gerações.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Ele quer dizer que a inocência de um homem piedoso será salvação para toda sua posteridade, ainda que ela seja má?
Discípulo: De modo algum. Significa que Deus exercerá sua benignidade para com os crentes de tal modo que, por causa deles, também se mostrará benigno para com seus filhos: não apenas concedendo-lhes prosperidade nesta vida, mas também santificando suas almas para lhes dar lugar entre seu rebanho.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Mas isso nem sempre parece acontecer.
Discípulo: Admito. Deus reserva para si a liberdade de mostrar misericórdia quando quer aos filhos dos ímpios. Do mesmo modo, não prendeu de tal maneira seu favor aos filhos dos crentes que não possa, segundo sua vontade, rejeitar alguns deles. Contudo, Ele ordena isso de modo que sua promessa não seja vã ou enganosa.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que Deus fala aqui de mil gerações, enquanto no caso do castigo menciona apenas três ou quatro?
Discípulo: Para mostrar que Ele é mais inclinado à bondade e beneficência do que à severidade. Ele também declara isso quando diz que está pronto a perdoar e é tardio em irar-se.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Agora, o terceiro mandamento.
Discípulo: Não tomarás o nome do Senhor, teu Deus, em vão.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é o significado?
Discípulo: Deus nos proíbe abusar de seu nome, não apenas por perjúrio, mas também jurando sem necessidade.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O nome de Deus pode ser usado legitimamente em juramento?
Discípulo: Sim, quando há causa adequada: primeiro, para afirmar a verdade; segundo, quando o assunto é de tal importância que convém jurar para manter o amor e a concórdia entre os homens.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Esse mandamento não vai além de restringir juramentos pelos quais o nome de Deus é profanado ou sua honra é diminuída?
Discípulo: Sim. A menção de uma espécie nos adverte, em geral, a nunca pronunciar o nome de Deus senão com temor e reverência, e com o propósito de honrá-lo. Sendo o nome de Deus santíssimo, devemos cuidar de todos os modos para não parecer desprezá-lo nem dar ocasião para que outros o desprezem.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Como isso deve ser feito?
Discípulo: Nunca falando nem pensando sobre Deus e suas obras sem honra.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que se segue?
Discípulo: Uma sanção, pela qual Deus declara que não terá por inocente aquele que tomar seu nome em vão.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Visto que Deus declara em outro lugar que punirá os transgressores de sua Lei, o que há de especial aqui?
Discípulo: Deus quis mostrar quanto valor dá à glória de seu nome, para que sejamos mais cuidadosos com ela ao vermos que a vingança está pronta contra todos os que a profanam.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Passemos ao quarto mandamento.
Discípulo: Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. Nele não farás obra alguma, nem tu, nem teu filho, nem tua filha, nem teu servo, nem tua serva, nem teu gado, nem o estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias o Senhor fez os céus, a terra, o mar e tudo o que neles há, e descansou no sétimo dia; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Deus ordena que trabalhemos seis dias para descansarmos no sétimo?
Discípulo: Não de modo absoluto. Permitindo ao homem seis dias para o trabalho, Ele separa o sétimo para que seja dedicado ao descanso.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Deus nos proíbe todo tipo de trabalho?
Discípulo: Este mandamento tem uma razão própria e peculiar. Como a observância do descanso fazia parte das antigas cerimônias, ela foi abolida com a vinda de Cristo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Você quer dizer que esse mandamento se referia propriamente aos judeus e, portanto, era apenas temporário?
Discípulo: Sim, naquilo em que era cerimonial.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Então há algo nesse mandamento além da cerimônia?
Discípulo: Sim. Ele foi dado por três razões.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Diga quais são.
Discípulo: Para figurar o descanso espiritual; para a preservação da ordem eclesiástica; e para o alívio dos servos.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que você entende por descanso espiritual?
Discípulo: Quando cessamos de nossas próprias obras, para que Deus realize suas obras em nós.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é o modo de guardar esse descanso?
Discípulo: Crucificando nossa carne, isto é, renunciando nossa própria inclinação, para que sejamos governados pelo Espírito de Deus.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: É suficiente fazer isso no sétimo dia?
Discípulo: Não. Devemos fazê-lo continuamente. Depois de começarmos, devemos prosseguir durante todo o curso da vida.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que, então, foi designado um dia determinado para figurar esse descanso?
Discípulo: Não é necessário que a realidade corresponda à figura em todos os detalhes, mas apenas naquilo que é adequado para representar o que se deseja ensinar.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que foi prescrito o sétimo dia, e não outro?
Discípulo: Na Escritura, o número sete indica perfeição. Por isso, é adequado para simbolizar permanência. Ao mesmo tempo, ensina que esse descanso espiritual começa nesta vida, mas só será perfeito quando partirmos deste mundo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que significa o fato de o Senhor nos exortar ao descanso por seu próprio exemplo?
Discípulo: Depois de concluir a criação do mundo em seis dias, Deus dedicou o sétimo à contemplação de suas obras. Para nos estimular mais fortemente, colocou diante de nós o seu próprio exemplo, pois nada é mais desejável do que sermos formados segundo a sua imagem.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: A meditação nas obras de Deus deve ser contínua, ou basta dedicar a isso um dia em sete?
Discípulo: Devemos exercitar-nos nela diariamente. Contudo, por causa da nossa fraqueza, um dia foi especialmente separado. Essa é a ordem eclesiástica a que me referi.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Que ordem deve ser observada nesse dia?
Discípulo: O povo deve reunir-se para ouvir a doutrina de Cristo, participar das orações públicas e fazer profissão de sua fé.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Explique o que você quis dizer ao afirmar que o Senhor também quis prover alívio aos servos por meio desse mandamento.
Discípulo: Ele quis que algum descanso fosse concedido aos que estão debaixo da autoridade de outros. Isso também contribui para a boa ordem comum, pois, quando um dia é dedicado ao repouso, todos se habituam ao trabalho nos demais dias.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Até que ponto esse mandamento se aplica a nós?
Discípulo: Quanto à cerimônia, entendo que foi abolido, pois a realidade significada por ela se encontra em Cristo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Como assim?
Discípulo: Porque, pela virtude da morte de Cristo, nosso velho homem é crucificado, e somos ressuscitados para novidade de vida.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que, então, permanece desse mandamento para nós?
Discípulo: Permanece o dever de não negligenciar as santas ordenanças que contribuem para a ordem espiritual da Igreja, especialmente frequentar as assembleias, ouvir a Palavra de Deus, celebrar os sacramentos e participar das orações públicas.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: A figura não nos ensina ainda algo mais?
Discípulo: Sim. Devemos considerar a realidade que ela aponta: sendo enxertados no corpo de Cristo e feitos seus membros, cessamos de nossas próprias obras e nos entregamos ao governo de Deus.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Passemos à segunda tábua.
Discípulo: Ela começa com este mandamento: honra teu pai e tua mãe.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Que sentido você dá à palavra honra?
Discípulo: Que os filhos, com modéstia e humildade, respeitem e obedeçam aos pais, sirvam-nos reverentemente, socorram-nos em suas necessidades e empreguem seu trabalho em favor deles. Nesses pontos está compreendida a honra devida aos pais.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Prossiga.
Discípulo: Ao mandamento é acrescentada a promessa: para que se prolonguem os teus dias na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é o significado dessa promessa?
Discípulo: Que, pela bênção de Deus, vida longa será concedida aos que prestam a devida honra aos pais.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Visto que esta vida é cheia de aflições, por que Deus promete sua duração como bênção?
Discípulo: Por maiores que sejam as misérias desta vida, ainda assim há bênção de Deus quando Ele nutre e preserva os crentes aqui, ao menos porque isso é prova de seu favor paternal.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Segue-se, ao contrário, que aquele que é retirado cedo deste mundo, antes da idade madura, está amaldiçoado por Deus?
Discípulo: De modo nenhum. Às vezes acontece justamente o contrário: quanto mais alguém é amado por Deus, mais cedo é retirado desta vida.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Mas, agindo assim, como Deus cumpre sua promessa?
Discípulo: Todo bem terreno prometido por Deus deve ser recebido sob esta condição: que seja útil ao bem e à salvação da nossa alma. Seria absurdo se o cuidado da alma não tivesse sempre precedência.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: E quanto aos que são rebeldes aos pais?
Discípulo: Eles não serão punidos apenas no juízo final; Deus também pode tomar vingança sobre seus corpos nesta vida, retirando-os no meio dos dias, entregando-os a um fim vergonhoso ou castigando-os de outras maneiras.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: A promessa não fala expressamente da terra de Canaã?
Discípulo: Sim, quanto aos israelitas. Contudo, para nós, o termo deve ser entendido de modo mais amplo, pois toda a terra é do Senhor, e qualquer região em que habitemos nos é dada por Ele como possessão.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Nada mais resta desse mandamento?
Discípulo: Embora apenas pai e mãe sejam mencionados, devemos compreender todos aqueles que estão acima de nós, pois a razão é a mesma.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é essa razão?
Discípulo: O Senhor os elevou a uma posição de honra. Não há autoridade, seja de pais, príncipes ou governantes, que não proceda do decreto de Deus, pois assim lhe agrada ordenar o mundo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Recite o sexto mandamento.
Discípulo: Não matarás.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Ele proíbe apenas o homicídio exterior?
Discípulo: Não. Como é Deus quem fala, Ele legisla não somente sobre as obras exteriores, mas também sobre os afetos da mente, principalmente estes.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Você está insinuando que há uma espécie de homicídio secreto do qual Deus nos afasta?
Discípulo: Sim. Ira, ódio e qualquer desejo de prejudicar alguém são homicídio diante de Deus.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Basta, então, não odiar ninguém?
Discípulo: De modo nenhum. Ao condenar o ódio e impedir que façamos mal ao próximo, o Senhor também exige que amemos todos os homens de coração e procuremos fielmente defendê-los e preservá-los.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Agora o sétimo mandamento.
Discípulo: Não adulterarás.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Explique a substância desse mandamento.
Discípulo: Todos os tipos de impureza sexual são amaldiçoados diante de Deus. Por isso, se não queremos provocar sua ira contra nós, devemos evitá-los cuidadosamente.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Esse mandamento exige algo mais?
Discípulo: Sim. Devemos sempre considerar a natureza do Legislador: Deus não olha apenas para o ato exterior, mas sobretudo para os afetos do coração.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que mais ele compreende?
Discípulo: Como nossos corpos e almas são templos do Espírito Santo, devemos conservar pureza em ambos: não apenas evitando atos externos impuros, mas também guardando coração, palavras, gestos e ações. Em resumo, o corpo deve estar livre de lascívia, e a mente, de cobiça impura.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Passemos ao oitavo mandamento.
Discípulo: Não furtarás.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Ele proíbe somente os furtos punidos pelas leis humanas, ou vai além?
Discípulo: Sob o nome de furto, ele inclui toda fraude, engano e injustiça pelos quais buscamos os bens de outros. Somos proibidos de tomar os bens do próximo por violência, astúcia ou qualquer meio indireto.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Basta afastar a mão do ato mau, ou a cobiça também é condenada aqui?
Discípulo: Devemos sempre lembrar que a Lei é espiritual. Ela não visa apenas impedir furtos exteriores, mas também todos os conselhos e desejos que prejudiquem o próximo, especialmente a cobiça de enriquecer às custas dos irmãos.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que, então, deve ser feito para obedecer a esse mandamento?
Discípulo: Devemos nos esforçar para que cada um conserve em segurança aquilo que lhe pertence.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é o nono mandamento?
Discípulo: Não dirás falso testemunho contra o teu próximo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Ele proíbe apenas o perjúrio em juízo, ou toda mentira contra o próximo?
Discípulo: Sob uma espécie particular, está compreendida a doutrina geral: não devemos acusar falsamente o próximo, nem ferir seu bom nome ou seus bens por maledicência e calúnia.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Por que menciona expressamente o falso testemunho público?
Discípulo: Para inspirar em nós maior horror a esse vício. Quem se acostuma à maledicência e à calúnia facilmente desce ao perjúrio quando encontra ocasião para difamar o próximo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Ele nos afasta apenas da maledicência, ou também da falsa suspeita e do julgamento injusto e sem caridade?
Discípulo: Condena ambos. Aquilo que é errado fazer diante dos homens também é errado desejar diante de Deus.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Explique, então, o sentido essencial desse mandamento.
Discípulo: Ele nos ordena a não pensar mal do próximo nem ser inclinados a difamá-lo, mas, com bondade e imparcialidade, pensar bem dele tanto quanto a verdade permitir e procurar preservar sua reputação.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Recite o último mandamento.
Discípulo: Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu servo, nem sua serva, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma que pertença ao teu próximo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Visto que toda a Lei é espiritual, e os mandamentos anteriores já corrigem os afetos da mente, o que se acrescenta aqui?
Discípulo: O Senhor já regulou a vontade e os afetos nos outros mandamentos, mas aqui impõe lei até aos pensamentos que carregam algum grau de cobiça, ainda que não cheguem a formar uma decisão deliberada.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Você diz que os menores graus de cobiça que entram na mente dos crentes são pecados, ainda que eles resistam e não consintam?
Discípulo: É claro que pensamentos viciosos, mesmo sem consentimento, procedem da corrupção da nossa natureza. Este mandamento condena os desejos maus que provocam o coração, ainda que não o levem a uma vontade firme e deliberada.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Você entende, então, que os afetos maus em que os homens consentem já foram proibidos antes, mas aqui se exige tal integridade que nossos corações não admitam desejo perverso algum que nos estimule ao pecado?
Discípulo: Exatamente.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Podemos agora formular um breve resumo de toda a Lei?
Discípulo: Sim. Podemos reduzi-la a dois pontos: amar a Deus de todo o coração, alma e força; e amar o próximo como a nós mesmos.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que está compreendido no amor a Deus?
Discípulo: Amá-lo como Deus deve ser amado, reconhecendo-o como nosso Senhor, Pai e Preservador. A esse amor se unem reverência, disposição para obedecer-lhe e confiança nele.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que você entende por todo o coração, toda a alma e toda a força?
Discípulo: Um zelo tão intenso que não haja lugar em nós para pensamentos, desejos ou buscas contrárias a esse amor.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Qual é o sentido do segundo ponto?
Discípulo: Como por natureza somos inclinados a amar a nós mesmos, esse amor-próprio costuma dominar tudo. Por isso, o amor ao próximo deve ter tal domínio em nós que governe todos os nossos propósitos e ações.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: O que você entende pelo termo próximo?
Discípulo: Não apenas parentes, amigos ou pessoas ligadas a nós por algum vínculo, mas também desconhecidos e até inimigos.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Mas que ligação eles têm conosco?
Discípulo: Estão ligados a nós pelo vínculo com que Deus uniu toda a raça humana. Esse vínculo é sagrado e inviolável, e a depravação de ninguém pode anulá-lo.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Você diz, então, que se alguém nos odeia, a culpa é dele, mas ainda assim permanece nosso próximo, pois a ordem divina que estabeleceu esse vínculo continua inviolável?
Discípulo: Sim, é isso.
Da Lei, isto é, dos Dez Mandamentos de Deus
Ministro: Visto que a Lei de Deus mostra a forma correta de adorá-lo, não devemos viver segundo sua direção?
Discípulo: Devemos, certamente. Contudo, todos somos marcados por fraqueza, de modo que ninguém cumpre perfeitamente tudo o que deve.
Perguntas 226 a 296
A invocação de Deus, o modo correto de orar e a exposição da Oração do Senhor.
Da Oração
Ministro: Por que, então, Deus exige uma perfeição que está além da nossa capacidade?
Discípulo: Ele não exige nada que não sejamos obrigados a cumprir. Mas, se nos esforçamos para seguir a forma de vida prescrita, embora fiquemos aquém da perfeição, o Senhor perdoa aquilo que falta.
Da Oração
Ministro: Você fala de todos os homens em geral, ou apenas dos crentes?
Discípulo: Quem ainda não foi regenerado pelo Espírito de Deus nem sequer está apto para começar a cumprir o menor ponto da Lei. Mesmo que se admitisse alguma obediência externa, ela não satisfaria a Deus, pois a Lei declara maldito todo aquele que não cumpre tudo o que nela está escrito.
Da Oração
Ministro: Daí devemos concluir que, havendo duas classes de homens, a função da Lei também é dupla?
Discípulo: Exatamente. Entre os incrédulos, ela os deixa sem desculpa diante de Deus e funciona como ministério de morte e condenação. Quanto aos crentes, ela possui outro uso.
Da Oração
Ministro: Qual?
Discípulo: Primeiro, ensina-lhes que não podem obter justiça pelas obras e os conduz à humildade, preparando-os para buscar salvação em Cristo. Segundo, exigindo mais do que podem cumprir, leva-os a buscar força no Senhor e a reconhecer sua culpa contínua. Por fim, serve como freio para conservá-los no temor de Deus.
Da Oração
Ministro: Então, embora nesta peregrinação terrena nunca satisfaçamos plenamente a Lei, não devemos julgá-la inútil por exigir tal perfeição, pois ela mostra o alvo ao qual devemos mirar e o caminho no qual devemos avançar?
Discípulo: Esse é o meu entendimento.
Da Oração
Ministro: Não temos na Lei uma regra perfeita de justiça?
Discípulo: Sim, de tal modo que Deus nada deseja de nós senão que a sigamos. Por outro lado, Ele rejeita e considera sem valor tudo o que inventamos além dela, pois o único sacrifício que aceita é a obediência.
Da Oração
Ministro: Para que servem, então, tantas advertências, preceitos e exortações nos Profetas e Apóstolos?
Discípulo: Eles são exposições da Lei, conduzindo-nos pela mão à sua obediência, em vez de nos afastarem dela.
Da Oração
Ministro: Mas Deus não dá mandamentos sobre cada caso particular de cada indivíduo?
Discípulo: Quando ordena que se dê a cada um o que lhe é devido, já podemos inferir o dever de cada pessoa em sua condição e ordem de vida. Além disso, explicações particulares estão espalhadas por toda a Escritura.
Da Oração
Ministro: Como a segunda parte do culto divino, que consiste em serviço e obediência, já foi suficientemente discutida, passemos à terceira.
Discípulo: Dissemos que essa terceira parte é a invocação, pela qual recorremos a Deus em toda necessidade.
Da Oração
Ministro: Você entende que somente Deus deve ser invocado?
Discípulo: Certamente. Ele requer isso como culto próprio de sua divindade.
Da Oração
Ministro: Se é assim, como podemos pedir ajuda aos homens?
Discípulo: Há grande diferença entre as duas coisas. Ao invocar Deus, confessamos que não esperamos bem algum de outra fonte e que nele está toda a nossa defesa. Aos homens, porém, pedimos auxílio apenas na medida em que Deus lhes permite e lhes concede meios de ajudar.
Da Oração
Ministro: Então recorrer à ajuda dos homens não interfere na invocação de Deus, desde que nossa confiança não esteja neles, mas em Deus, que os usa como instrumentos de sua bondade?
Discípulo: Sim. Todo benefício recebido por meio dos homens deve ser considerado como vindo de Deus, pois Ele é quem concede todas essas coisas por meio deles.
Da Oração
Ministro: Mas não devemos ser gratos aos homens quando nos fazem algum bem?
Discípulo: Certamente. Deus os honra ao fazer passar por suas mãos, como riachos, as bênçãos que procedem da fonte inesgotável de sua generosidade. Por isso, quem não se mostra grato a eles revela ingratidão para com Deus.
Da Oração
Ministro: Podemos concluir, então, que é errado invocar os anjos e os santos servos do Senhor que já partiram desta vida?
Discípulo: Sim. Deus não atribuiu aos santos o ofício de nos socorrer. Quanto aos anjos, embora use seu serviço para nossa salvação, Ele não quer que lhes peçamos esse auxílio.
Da Oração
Ministro: Você diz, então, que tudo o que não se ajusta à ordem instituída por Deus é contrário à sua vontade?
Discípulo: Sim. Não se contentar com aquilo que Deus nos dá é sinal de incredulidade. Se buscamos proteção em anjos ou santos quando Deus nos chama a si mesmo, repartimos com eles a confiança que deve estar inteiramente em Deus e caímos em idolatria.
Da Oração
Ministro: Consideremos agora o modo de orar. Basta orar com a língua, ou a oração exige também mente e coração?
Discípulo: A língua nem sempre é necessária, mas a verdadeira oração nunca existe sem entendimento e afeto.
Da Oração
Ministro: Com que argumento você provará isso?
Discípulo: Deus é Espírito e requer o coração em todo culto, especialmente na oração, pela qual temos comunhão com Ele. Ele promete estar perto dos que o invocam em verdade, mas abomina aqueles que oram de modo fingido e sem sinceridade.
Da Oração
Ministro: Então as orações feitas apenas com a língua são vãs e sem valor?
Discípulo: Não apenas isso, mas são também extremamente desagradáveis a Deus.
Da Oração
Ministro: Que sentimento Deus requer na oração?
Discípulo: Primeiro, que sintamos nossa necessidade e miséria, gerando tristeza e inquietação em nossa alma. Segundo, que sejamos inflamados por ardente desejo de obter a graça de Deus.
Da Oração
Ministro: Esse sentimento procede da natureza humana ou da graça de Deus?
Discípulo: Deus precisa vir em nosso auxílio, pois somos incapazes disso por nós mesmos. É o Espírito de Deus quem desperta em nós gemidos inexprimíveis e forma em nosso coração os desejos adequados à oração.
Da Oração
Ministro: Essa doutrina significa que devemos ficar parados esperando os movimentos do Espírito, sem nos estimularmos à oração?
Discípulo: De modo nenhum. Quando os crentes se sentem frios, lentos ou indispostos para orar, devem imediatamente recorrer a Deus e pedir que Ele os inflame pelo Espírito, tornando-os aptos para a oração.
Da Oração
Ministro: Você não quer dizer, porém, que a língua não tenha uso na oração?
Discípulo: Não. Muitas vezes ela ajuda a sustentar a mente e a impedir que ela se distraia de Deus. Além disso, a língua foi criada para manifestar a glória divina e deve ser usada para esse fim.
Da Oração
Ministro: Então que proveito têm aqueles que oram em língua estrangeira que não entendem?
Discípulo: Isso é brincar com Deus. Os cristãos não devem ter parte nessa hipocrisia.
Da Oração
Ministro: Quando oramos, devemos fazê-lo incertos do resultado, ou seguros de que o Senhor nos ouvirá?
Discípulo: O fundamento da oração deve ser a certeza de que o Senhor nos ouvirá e nos concederá aquilo que for para o nosso bem. A verdadeira oração procede da fé.
Da Oração
Ministro: O que acontece com aqueles que oram em dúvida, sem saber que proveito obterão, nem se Deus ouvirá suas orações?
Discípulo: Suas orações são vãs e vazias, pois não se apoiam em promessa alguma. Somos ordenados a pedir com fé segura, e a promessa é que receberemos aquilo que pedirmos crendo.
Da Oração
Ministro: Resta saber de onde vem tamanha confiança, já que somos indignos de nos apresentar diante de Deus.
Discípulo: Primeiro, temos as promessas, nas quais devemos simplesmente descansar, sem olhar para nossa dignidade. Segundo, se somos filhos, Deus nos move por seu Espírito a nos aproximarmos dele como de um Pai. Além disso, Cristo nos é dado como Mediador, para que por Ele tenhamos acesso e certeza de favor.
Da Oração
Ministro: Você entende que devemos orar a Deus somente em nome de Cristo?
Discípulo: Sim. Isso é expressamente ordenado, e a promessa é que Cristo, por sua intercessão, obterá aquilo que pedimos.
Da Oração
Ministro: Então não há presunção em aproximar-se de Deus confiando nesse Advogado e apresentando Cristo como único meio pelo qual somos ouvidos?
Discípulo: De modo nenhum. Quem ora assim entende que sua oração é sustentada pela intercessão de Cristo, como se fosse apresentada pelos próprios lábios dele.
Da Oração
Ministro: Consideremos agora o conteúdo das orações dos crentes. É lícito pedir a Deus qualquer coisa que venha à mente, ou há uma regra a observar?
Discípulo: Seria desordenado orar conforme nossos próprios desejos e juízos carnais. Somos ignorantes demais para saber o que convém, e nossos desejos precisam ser refreados.
Da Oração
Ministro: O que, então, deve ser feito?
Discípulo: Resta que o próprio Deus nos prescreva uma forma adequada de oração, conduzindo-nos pela mão e colocando diante de nós as palavras certas.
Da Oração
Ministro: Que regra Ele prescreveu?
Discípulo: A Escritura ensina amplamente sobre a oração. Mas, para nos dar alvo mais seguro, Deus nos deu uma forma breve que reúne os principais pedidos lícitos e úteis.
Da Oração
Ministro: Recite essa oração.
Discípulo: Nosso Senhor Jesus Cristo, quando perguntado por seus discípulos como deveriam orar, respondeu: Pai nosso, que estás nos céus, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal; pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém.
Da Oração
Ministro: Para entendermos melhor o que essa oração contém, dividamo-la em partes.
Discípulo: Ela contém seis petições. As três primeiras têm como fim próprio a glória de Deus, sem referência direta a nós; as outras três dizem respeito a nós e ao nosso bem.
Da Oração
Ministro: Devemos pedir a Deus algo de que não nos venha nenhum benefício?
Discípulo: Deus, por sua infinita bondade, ordena todas as coisas de tal modo que nada tende à sua glória sem também ser salutar para nós. Contudo, nas três primeiras petições devemos olhar somente para sua glória.
Da Oração
Ministro: Então, nessa perspectiva, três pedidos se relacionam também ao nosso bem, mas seu alvo principal deve ser a glória de Deus?
Discípulo: Sim. E a glória de Deus também deve ser considerada nas outras três, embora elas expressem propriamente desejos ligados ao nosso bem e salvação.
Da Oração
Ministro: Por que Deus é chamado Pai, e não por outro nome?
Discípulo: Como a segurança da consciência é essencial para orar corretamente, Deus assume esse nome, que comunica bondade, para afastar a ansiedade e nos convidar a aproximar-nos dele familiarmente.
Da Oração
Ministro: Podemos, então, ir diretamente a Ele, sem hesitação, como filhos a seus pais?
Discípulo: Sim, com confiança ainda maior. Se pais terrenos, mesmo sendo maus, dão coisas boas aos filhos, quanto mais devemos esperar a bondade do Pai celestial, que é a própria bondade.
Da Oração
Ministro: Desse nome podemos concluir que nossas orações devem estar fundadas na intercessão de Cristo?
Discípulo: Sim, e essa é uma conclusão muito firme. Deus nos reconhece como filhos somente porque somos membros de Cristo.
Da Oração
Ministro: Por que dizemos Pai nosso em comum, e não meu Pai em particular?
Discípulo: Cada crente pode chamá-lo de seu Pai, mas o Senhor usou a expressão comum para nos acostumar à caridade nas orações, a fim de que não negligenciemos os outros cuidando apenas de nós mesmos.
Da Oração
Ministro: O que significa dizer que Deus está nos céus?
Discípulo: É o mesmo que chamá-lo exaltado, poderoso e incompreensível.
Da Oração
Ministro: Com que finalidade isso é acrescentado?
Discípulo: Para que, ao orarmos, elevemos nossa mente e não tenhamos pensamentos carnais ou terrenos sobre Deus. Também confirma nossa confiança, pois Ele é Senhor e Governador do céu, regendo todas as coisas segundo sua vontade.
Da Oração
Ministro: Diga a substância da primeira petição.
Discípulo: Pelo nome de Deus, a Escritura indica o conhecimento e a fama com que Ele é celebrado entre os homens. Pedimos, então, que sua glória seja promovida em todos os lugares e em todas as coisas.
Da Oração
Ministro: Pode-se acrescentar ou tirar algo da glória de Deus?
Discípulo: Em si mesma, ela não aumenta nem diminui. Mas oramos para que seja reconhecida entre os homens e para que, em todas as obras de Deus, Ele seja glorificado como deve ser.
Da Oração
Ministro: O que você entende pelo reino de Deus na segunda petição?
Discípulo: Ele consiste principalmente em duas coisas: que Deus governe os eleitos por seu Espírito e que abata e destrua os rebeldes que recusam seu serviço, mostrando que nada pode resistir ao seu poder.
Da Oração
Ministro: Em que sentido você ora para que esse reino venha?
Discípulo: Pedimos que o Senhor aumente diariamente o número dos fiéis, conceda-lhes novos dons de seu Espírito, torne sua verdade mais clara, dissipe as trevas de Satanás e faça avançar sua justiça, abolindo a iniquidade.
Da Oração
Ministro: Essas coisas não acontecem todos os dias?
Discípulo: Acontecem de modo inicial, pois o reino de Deus já começou. Mas pedimos que ele cresça continuamente até alcançar sua plenitude no último dia, quando Deus será tudo em todos.
Da Oração
Ministro: O que significa pedir que a vontade de Deus seja feita?
Discípulo: Que todas as criaturas sejam submetidas à sua obediência e dependam de sua vontade, de modo que nada aconteça senão conforme seu agrado.
Da Oração
Ministro: Você entende, então, que algo pode ser feito contra a vontade de Deus?
Discípulo: Pedimos não apenas que se cumpra aquilo que Deus decretou, mas também que toda rebeldia seja domada, para que todas as vontades sejam sujeitas à sua vontade.
Da Oração
Ministro: Ao orarmos assim, não renunciamos à nossa própria vontade?
Discípulo: Inteiramente. Pedimos que Deus anule todos os desejos contrários à sua vontade e forme em nós nova mente e novo coração, para que seu Espírito governe nossos desejos.
Da Oração
Ministro: Por que pedimos que isso seja feito na terra como no céu?
Discípulo: Porque os santos anjos têm como único propósito obedecer a Deus em tudo, sempre prontos a servir. Pedimos que também os homens lhe prestem obediência pronta e voluntária.
Da Oração
Ministro: Passemos agora à segunda parte da oração. O que você entende pelo pão cotidiano que pedimos?
Discípulo: Em geral, tudo o que serve à conservação desta vida presente, não apenas alimento e roupa, mas todos os auxílios necessários à vida exterior, para que vivamos em paz conforme o Senhor sabe ser conveniente.
Da Oração
Ministro: Por que pedimos a Deus aquilo que Ele nos ordena buscar pelo nosso trabalho?
Discípulo: Embora devamos trabalhar e suar pelo sustento, não somos nutridos por nosso trabalho, diligência ou indústria, mas pela bênção de Deus, que faz prosperar o labor de nossas mãos. Mesmo tendo alimento, somos sustentados pela virtude de Deus.
Da Oração
Ministro: Com que direito você chama esse pão de nosso quando pede que Deus o dê?
Discípulo: Porque, pela bondade de Deus, ele se torna nosso, embora não nos seja devido. Também somos lembrados a não cobiçar o pão alheio e a contentar-nos com o que recebemos legitimamente da mão de Deus.
Da Oração
Ministro: Por que acrescentamos cotidiano e hoje?
Discípulo: Essas palavras nos ensinam moderação e temperança, para que nossos desejos não ultrapassem a medida da necessidade.
Da Oração
Ministro: Como os ricos, que têm abundância em casa e provisão para muito tempo, podem pedir o pão de um só dia?
Discípulo: Eles, assim como os pobres, devem lembrar que nada do que possuem lhes aproveita se Deus não lhes conceder o uso e não tornar esse uso frutífero. Mesmo possuindo tudo, nada temos senão aquilo que a cada hora recebemos da mão de Deus.
Da Oração
Ministro: O que contém a quinta petição?
Discípulo: Que o Senhor perdoe os nossos pecados.
Da Oração
Ministro: Pode-se encontrar algum mortal tão justo que não necessite desse perdão?
Discípulo: Nenhum. Cristo deu essa forma de oração para toda a Igreja. Quem se julgasse isento dessa necessidade teria de sair da comunhão dos fiéis. Nosso único refúgio é a misericórdia de Deus.
Da Oração
Ministro: Como você entende que os pecados nos são perdoados?
Discípulo: Como as palavras de Cristo indicam: são dívidas que nos tornam sujeitos à morte eterna, até que Deus, por pura generosidade, nos liberte.
Da Oração
Ministro: Então é pela misericórdia gratuita de Deus que obtemos perdão dos pecados?
Discípulo: Totalmente. Se tivéssemos de pagar a pena de um único pecado, mesmo o menor, não poderíamos satisfazê-la. Portanto, tudo deve ser livremente perdoado.
Da Oração
Ministro: Que vantagem recebemos desse perdão?
Discípulo: Somos aceitos como se fôssemos justos e inocentes, e nossa consciência é confirmada na confiança plena do favor paternal de Deus, assegurando-nos a salvação.
Da Oração
Ministro: A condição de perdoarmos nossos devedores significa que merecemos o perdão de Deus por perdoar quem nos ofendeu?
Discípulo: De modo nenhum. Se fosse assim, o perdão não seria gratuito nem fundado somente na satisfação de Cristo na cruz. Ao perdoarmos, imitamos a bondade de Deus e demonstramos que somos seus filhos.
Da Oração
Ministro: Você diz, então, que aqueles que não conseguem perdoar de coração são rejeitados por Deus e não podem esperar perdão no céu?
Discípulo: Sim. Conforme a palavra de Cristo, com a medida com que medirmos também seremos medidos.
Da Oração
Ministro: O que vem depois?
Discípulo: Não nos deixes cair em tentação, mas livra-nos do mal.
Da Oração
Ministro: Você inclui tudo isso em uma só petição?
Discípulo: Sim. É uma só petição, pois a segunda parte explica a primeira.
Da Oração
Ministro: O que ela contém em substância?
Discípulo: Pedimos que o Senhor não permita que caiamos em pecado, nem nos deixe ser vencidos pelo diabo e pelos desejos da carne. Antes, que nos fortaleça para resistir, nos sustente por sua mão e nos proteja sob sua guarda.
Da Oração
Ministro: Como isso é feito?
Discípulo: Quando, governados pelo Espírito, somos tomados por amor e desejo de justiça, vencendo a carne, o pecado e Satanás; e, ao mesmo tempo, somos afastados do mundo pelo ódio ao pecado e pela busca de santidade.
Da Oração
Ministro: Temos necessidade desse auxílio?
Discípulo: Quem poderia dispensá-lo? O diabo ronda continuamente como leão que ruge, buscando a quem devorar. Sem que Deus nos arme e fortaleça, estaríamos perdidos a cada instante.
Da Oração
Ministro: O que você entende por tentação?
Discípulo: As astúcias e enganos de Satanás, pelos quais ele nos ataca constantemente. Sem o auxílio de Deus, nossa mente, por sua vaidade, cairia facilmente nessas ciladas, e nossa vontade, inclinada ao mal, logo cederia.
Da Oração
Ministro: Por que pedimos a Deus que não nos conduza à tentação, se isso parece ser obra própria de Satanás?
Discípulo: Deus protege os crentes para que não sejam oprimidos pelas ciladas de Satanás nem vencidos pelo pecado. Mas aqueles a quem quer punir, Ele deixa sem sua graça, entrega à tirania de Satanás e permite que sejam escravizados pelo pecado.
Da Oração
Ministro: O que significa a cláusula: pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre?
Discípulo: Ela nos lembra novamente que nossas orações devem apoiar-se mais no poder e na bondade de Deus do que em qualquer confiança em nós mesmos. Também nos ensina a concluir nossas orações com louvor.
Da Oração
Ministro: Não é lícito pedir a Deus algo que não esteja compreendido nessa forma de oração?
Discípulo: Embora sejamos livres para orar com outras palavras, devemos considerar que nenhuma oração agrada a Deus se não puder ser referida a esta como regra única da oração correta.
Perguntas 297 a 309
O reconhecimento de Deus como autor de todo bem, o uso das Escrituras, da pregação e do ensino público da Igreja.
Da Palavra de Deus
Ministro: A ordem que seguimos exige agora considerar a quarta parte do culto divino.
Discípulo: Dissemos que essa parte consiste em reconhecer Deus como autor de todo bem e em exaltar com louvor e ações de graças sua bondade, justiça, sabedoria e poder, para que a glória de todo bem permaneça inteiramente nele.
Da Palavra de Deus
Ministro: Ele não prescreveu regra para essa parte?
Discípulo: Todos os louvores contidos na Escritura devem ser nossa regra.
Da Palavra de Deus
Ministro: A Oração do Senhor não contém algo que se aplique aqui?
Discípulo: Sim. Quando oramos para que o nome de Deus seja santificado, pedimos que Ele seja devidamente glorificado em suas obras: misericordioso ao perdoar, justo ao exercer juízo, verdadeiro ao cumprir suas promessas.
Da Palavra de Deus
Ministro: O que devemos inferir dos pontos considerados até aqui?
Discípulo: A própria verdade ensina que a vida eterna é conhecer o único Deus verdadeiro e Jesus Cristo, a quem Ele enviou. Conhecê-lo assim é honrá-lo e adorá-lo devidamente, reconhecendo-o como Senhor, Pai e Salvador, e vivendo para sua glória.
Da Palavra de Deus
Ministro: Como podemos alcançar tal bem-aventurança?
Discípulo: Para esse fim, Deus nos deixou sua santa Palavra, pois a doutrina espiritual é como uma porta pela qual entramos em seu reino celestial.
Da Palavra de Deus
Ministro: Onde devemos buscar essa Palavra?
Discípulo: Nas Sagradas Escrituras, nas quais ela está contida.
Da Palavra de Deus
Ministro: Como devemos usá-la para sermos beneficiados por ela?
Discípulo: Devemos recebê-la com plena convicção do coração, como verdade descida do céu; ser ensináveis; sujeitar mente e vontade à sua obediência; amá-la sinceramente; gravá-la no coração para produzir fruto; e ser moldados por sua regra.
Da Palavra de Deus
Ministro: Essas coisas estão em nosso próprio poder?
Discípulo: Não. Tudo isso Deus realiza em nós pelo dom do seu Espírito.
Da Palavra de Deus
Ministro: Mas não devemos usar diligência e esforçar-nos para crescer por meio da leitura, audição e meditação?
Discípulo: Sim. Cada um deve exercitar-se na leitura diária da Palavra, e todos devem ter especial cuidado em ouvir os sermões quando a doutrina da salvação é exposta na assembleia dos fiéis.
Da Palavra de Deus
Ministro: Você afirma que não basta cada um ler privadamente em casa, mas todos devem reunir-se para ouvir a mesma doutrina?
Discípulo: Devem reunir-se quando puderem, isto é, quando houver oportunidade.
Da Palavra de Deus
Ministro: Você pode provar isso?
Discípulo: A vontade de Deus deve bastar como prova. A ordem que Ele recomendou à Igreja não é para dois ou três apenas, mas para todos em comum. Ele declarou que esse é o método de edificação e preservação da Igreja.
Da Palavra de Deus
Ministro: É necessário que pastores presidam as igrejas?
Discípulo: Sim. É necessário ouvi-los e receber com temor e reverência a doutrina de Cristo proposta por seus lábios.
Da Palavra de Deus
Ministro: Basta que o cristão tenha sido instruído uma vez por seu pastor, ou deve observar esse curso por toda a vida?
Discípulo: Começar é pouco, se não houver perseverança. Devemos ser discípulos de Cristo até o fim, ou melhor, sem fim. Ele confiou aos ministros da Igreja o ofício de ensinar em seu nome.
Perguntas 310 a 374
A natureza dos sacramentos, o Batismo, a Ceia do Senhor, sua administração e a ordem eclesiástica.
Dos Sacramentos
Ministro: Não há outro meio, além da Palavra, pelo qual Deus comunica-se conosco?
Discípulo: À pregação da Palavra, Deus acrescentou os sacramentos.
Dos Sacramentos
Ministro: O que é um sacramento?
Discípulo: É uma atestação exterior da benevolência divina para conosco, pela qual, mediante sinal visível, a graça espiritual é figurada, a fim de selar as promessas de Deus em nosso coração e confirmá-las melhor.
Dos Sacramentos
Ministro: Há no sinal visível tal virtude que possa firmar nossa consciência na certeza da salvação?
Discípulo: Essa virtude não está no sinal por si mesmo, mas na vontade de Deus, que o instituiu para esse fim.
Dos Sacramentos
Ministro: Se é ofício próprio do Espírito Santo selar as promessas de Deus em nossa mente, como você atribui isso aos sacramentos?
Discípulo: Há grande diferença entre o Espírito e os sacramentos. Mover o coração, iluminar a mente e tranquilizar a consciência pertencem somente ao Espírito. Contudo, Deus usa os sacramentos como instrumentos secundários sem diminuir a ação do Espírito.
Dos Sacramentos
Ministro: Você entende, então, que o poder e a eficácia do sacramento não estão no elemento exterior, mas procedem inteiramente do Espírito de Deus?
Discípulo: Sim. O Senhor se agrada em agir por seus instrumentos, segundo o fim para o qual os destinou, sem tirar nada da virtude do seu Espírito.
Dos Sacramentos
Ministro: Você pode dar uma razão para Deus agir assim?
Discípulo: Ele considera nossa fraqueza. Se fôssemos plenamente espirituais, contemplaríamos espiritualmente a Deus e sua graça. Mas, por estarmos cercados por este corpo terreno, precisamos de figuras ou espelhos que nos mostrem as coisas celestiais de modo acessível.
Dos Sacramentos
Ministro: Se os sacramentos foram instituídos por Deus para ajudar nossa necessidade, não é arrogância alguém julgar que pode dispensá-los?
Discípulo: Certamente. Quem voluntariamente se abstém deles, como se não precisasse, despreza Cristo, rejeita sua graça e apaga o Espírito.
Dos Sacramentos
Ministro: Que confiança pode haver nos sacramentos, se bons e maus os usam indistintamente?
Discípulo: Embora os ímpios, quanto a si mesmos, anulem os dons de Deus oferecidos nos sacramentos, eles não tiram dos sacramentos sua natureza e virtude.
Dos Sacramentos
Ministro: Como e quando o efeito segue o uso dos sacramentos?
Discípulo: Quando os recebemos pela fé, buscando neles somente Cristo e sua graça.
Dos Sacramentos
Ministro: Por que você diz que Cristo deve ser buscado neles?
Discípulo: Quero dizer que não devemos nos prender aos sinais visíveis, como se a salvação viesse deles ou como se a graça estivesse encerrada neles. O sinal deve ser usado como auxílio que nos dirige diretamente a Cristo.
Dos Sacramentos
Ministro: Se a fé é necessária para usá-los, como você diz que os sacramentos confirmam nossa fé?
Discípulo: Não basta que a fé tenha começado em nós. Ela precisa ser continuamente nutrida e crescer diariamente. Para alimentá-la, fortalecê-la e fazê-la avançar, o Senhor instituiu os sacramentos.
Dos Sacramentos
Ministro: Não é sinal de incredulidade precisar que as promessas de Deus sejam confirmadas por outro meio?
Discípulo: Isso revela a fraqueza da fé dos filhos de Deus, mas não os torna incrédulos. Enquanto estivermos neste mundo, restos de desconfiança permanecem em nossa carne, e precisamos progredir continuamente.
Dos Sacramentos
Ministro: Quantos são os sacramentos da Igreja cristã?
Discípulo: São apenas dois, cujo uso é comum a todos os crentes.
Dos Sacramentos
Ministro: Quais são eles?
Discípulo: O Batismo e a Santa Ceia.
Dos Sacramentos
Ministro: Que semelhança ou diferença há entre eles?
Discípulo: O Batismo é como entrada na Igreja, pois nele recebemos testemunho de que, sendo estrangeiros, somos recebidos na família de Deus. A Ceia, por outro lado, testifica que Deus nos alimenta espiritualmente.
Dos Sacramentos
Ministro: Para tornar mais claro o significado de ambos, tratemos deles separadamente. Primeiro: qual é o sentido do Batismo?
Discípulo: Ele consiste em duas partes: primeiro, o perdão dos pecados; segundo, a regeneração espiritual, que nele é figurada.
Dos Sacramentos
Ministro: Que semelhança a água tem com essas coisas para representá-las?
Discípulo: O perdão dos pecados é uma espécie de lavagem pela qual nossas almas são purificadas de suas impurezas, assim como as manchas do corpo são lavadas pela água.
Dos Sacramentos
Ministro: O que você diz da regeneração?
Discípulo: Como seu início é a mortificação da nossa natureza, e seu fim é nos tornarmos novas criaturas, a água representa a morte e também a nova vida, como se entrássemos por um momento em um sepulcro e dele logo emergíssemos.
Dos Sacramentos
Ministro: Você entende que a água lava a alma?
Discípulo: De modo nenhum. Seria impiedade tirar essa honra do sangue de Cristo, derramado para apagar nossas manchas e nos apresentar puros diante de Deus. Recebemos o fruto dessa purificação quando o Espírito Santo asperge nossa consciência com esse sangue sagrado.
Dos Sacramentos
Ministro: Você atribui à água apenas o papel de figura da lavagem?
Discípulo: Entendo que ela é figura, mas uma figura à qual a realidade está anexada, pois Deus não frustra suas promessas. Assim, perdão dos pecados e novidade de vida são oferecidos no Batismo e recebidos por nós.
Dos Sacramentos
Ministro: Essa graça é concedida a todos indistintamente?
Discípulo: Muitos, por sua depravação, impedem sua entrada e a tornam inútil para si mesmos. O benefício pertence aos crentes, embora o sacramento não perca sua natureza.
Dos Sacramentos
Ministro: De onde procede a regeneração?
Discípulo: Da morte e ressurreição de Cristo juntas. Por sua morte, nosso velho homem é crucificado e a corrupção da natureza é sepultada; por sua ressurreição, somos reformados para nova vida e para obedecer à justiça de Deus.
Dos Sacramentos
Ministro: Como essas bênçãos nos são concedidas pelo Batismo?
Discípulo: Se não tornarmos infrutíferas as promessas oferecidas ali, rejeitando-as, somos revestidos de Cristo e recebemos seu Espírito.
Dos Sacramentos
Ministro: O que devemos fazer para usar corretamente o Batismo?
Discípulo: O uso correto do Batismo consiste em fé e arrependimento: confiar firmemente que, purificados pelo sangue de Cristo, somos agradáveis a Deus; reconhecer seu Espírito habitando em nós; e buscar continuamente a mortificação da carne e a obediência à justiça de Deus.
Dos Sacramentos
Ministro: Se essas coisas são necessárias ao uso legítimo do Batismo, por que batizamos crianças?
Discípulo: Não é necessário que fé e arrependimento precedam sempre o Batismo. Eles são exigidos daqueles cuja idade os torna capazes de ambos. Quanto às crianças, basta que, ao crescerem, manifestem o poder de seu Batismo.
Dos Sacramentos
Ministro: Você pode demonstrar pela razão que não há absurdo nisso?
Discípulo: Sim, se admitirmos que o Senhor nada instituiu contra a razão. Moisés e os profetas ensinam que a circuncisão era sinal de arrependimento, e Paulo a chama sacramento da fé; ainda assim, as crianças não eram excluídas dela.
Dos Sacramentos
Ministro: As crianças são admitidas agora ao Batismo pela mesma razão válida na circuncisão?
Discípulo: Sim. As promessas que Deus deu antigamente ao povo de Israel agora são publicadas por todo o mundo.
Dos Sacramentos
Ministro: Daí você conclui que o sinal também deve ser usado?
Discípulo: Quem ponderar corretamente ambas as ordenanças perceberá que sim. Cristo, ao nos tornar participantes da graça antes concedida a Israel, não a tornou mais obscura nem menos abundante, mas a derramou de forma mais clara e rica.
Dos Sacramentos
Ministro: Se as crianças são privadas do Batismo, algo é retirado da graça de Deus e diminuído com a vinda de Cristo?
Discípulo: Sim. Se o sinal, que testemunha a misericórdia de Deus e confirma suas promessas, fosse retirado, ficaríamos sem uma consolação admirável que os antigos possuíam.
Dos Sacramentos
Ministro: Então, assim como Deus, no Antigo Testamento, quis confirmar sua promessa aos filhos dos crentes por sinal visível, seria inadequado supor que, depois de Cristo, os crentes tenham menos confirmação?
Discípulo: Esse é o meu entendimento. Além disso, se a substância do Batismo pertence às crianças, seria injusto negar-lhes o sinal, que é inferior à substância.
Dos Sacramentos
Ministro: Em que termos as crianças devem ser batizadas?
Discípulo: Para testemunhar que são herdeiras da bênção prometida à descendência dos crentes, e para que, ao crescerem e reconhecerem a realidade significada, recebam e produzam o fruto de seu Batismo.
Dos Sacramentos
Ministro: Passemos agora à Ceia. Primeiro, diga qual é o seu significado.
Discípulo: Ela foi instituída por Cristo para que, pela comunicação de seu corpo e sangue, sejamos ensinados e certificados de que nossas almas são nutridas na esperança da vida eterna.
Dos Sacramentos
Ministro: Por que o corpo do Senhor é figurado pelo pão, e seu sangue pelo vinho?
Discípulo: Assim como o pão nutre o corpo para sustentar a vida presente, o corpo do Senhor nutre espiritualmente nossas almas. E assim como o vinho alegra e fortalece o homem, o sangue do Senhor comunica benefícios semelhantes à alma.
Dos Sacramentos
Ministro: Então comemos o corpo e bebemos o sangue do Senhor?
Discípulo: Sim. Como toda a nossa confiança para salvação depende de Cristo, precisamos possuí-lo; e Ele comunica suas bênçãos fazendo-se nosso.
Dos Sacramentos
Ministro: Mas Cristo não se entregou quando morreu para nos redimir da morte e reconciliar-nos com Deus?
Discípulo: Sim, isso é verdade. Contudo, é necessário que agora o recebamos, para que a eficácia e o fruto de sua morte cheguem até nós.
Dos Sacramentos
Ministro: O modo de recebê-lo não consiste na fé?
Discípulo: Sim. Mas isso significa não apenas crer que Ele morreu para nos livrar da morte e ressuscitou para nos dar vida, mas também reconhecer que Ele habita em nós e que estamos unidos a Ele como membros à cabeça.
Dos Sacramentos
Ministro: Obtemos essa comunhão somente pela Ceia?
Discípulo: Não. Cristo também nos é comunicado pelo Evangelho, pois nele aprendemos que somos carne de sua carne e ossos de seus ossos, que Ele é o pão vivo descido do céu e que somos um com Ele.
Dos Sacramentos
Ministro: Que mais obtemos pelo sacramento, ou que outro benefício ele nos confere?
Discípulo: A comunhão mencionada é confirmada e aumentada. Embora Cristo nos seja apresentado no Batismo e no Evangelho, na Ceia essa comunhão é especialmente nutrida.
Dos Sacramentos
Ministro: O que temos no símbolo do pão?
Discípulo: Assim como o corpo de Cristo foi uma vez sacrificado por nós para nos reconciliar com Deus, agora ele nos é dado para que saibamos com certeza que essa reconciliação nos pertence.
Dos Sacramentos
Ministro: E no símbolo do vinho?
Discípulo: Assim como Cristo derramou seu sangue para satisfazer por nossos pecados e pagar o preço da redenção, agora o dá a nós como bebida, para que percebamos o benefício que dele procede.
Dos Sacramentos
Ministro: Segundo essas respostas, a Santa Ceia nos remete à morte do Senhor para que participemos de sua virtude?
Discípulo: Completamente. Na morte de Cristo foi realizado o único sacrifício perpétuo e suficiente para nossa salvação; nada resta senão desfrutá-lo.
Dos Sacramentos
Ministro: A Ceia foi instituída para oferecer a Deus o corpo de seu Filho?
Discípulo: De modo nenhum. Somente Cristo, como sacerdote eterno, possui esse privilégio. Suas palavras dizem: Tomai, comei; Ele não manda oferecer seu corpo, mas comê-lo.
Dos Sacramentos
Ministro: Por que usamos dois sinais?
Discípulo: Nisso o Senhor considerou nossa fraqueza, ensinando-nos de modo mais familiar que Ele é não só alimento, mas também bebida para nossas almas. Assim, não devemos buscar nenhuma parte da vida espiritual fora dele.
Dos Sacramentos
Ministro: Todos, sem exceção, devem usar ambos os sinais igualmente?
Discípulo: Sim. Esse é o mandamento de Cristo, e afastar-se dele tentando algo contrário é impiedade.
Dos Sacramentos
Ministro: Na Ceia temos apenas uma figura dos benefícios mencionados, ou eles nos são realmente apresentados?
Discípulo: Como nosso Senhor Jesus Cristo é a própria verdade, não há dúvida de que cumpre as promessas ali dadas e une a realidade aos sinais. Assim, como testifica por palavras e sinais, também nos faz participantes de sua substância.
Dos Sacramentos
Ministro: Como isso pode acontecer, se o corpo de Cristo está no céu e nós ainda peregrinamos na terra?
Discípulo: Cristo realiza isso pela ação secreta e maravilhosa de seu Espírito, a quem não é difícil unir coisas separadas por grande distância.
Dos Sacramentos
Ministro: Você não imagina, então, que o corpo esteja encerrado no pão ou o sangue no vinho?
Discípulo: Não. Para obtermos a realidade dos sinais, nossa mente deve ser elevada ao céu, onde Cristo está e de onde esperamos que venha como Juiz e Redentor. É impróprio e vão procurá-lo nos elementos terrenos.
Dos Sacramentos
Ministro: Resumindo: você afirma que há duas coisas na Ceia: pão e vinho, vistos e tocados, e Cristo, por quem nossas almas são alimentadas interiormente?
Discípulo: Sim. E também a ressurreição do corpo é confirmada ali como penhor, pois o corpo participa do símbolo da vida.
Dos Sacramentos
Ministro: Qual é o uso correto e legítimo desse sacramento?
Discípulo: Aquele que Paulo ensina: que cada um examine a si mesmo antes de aproximar-se dele.
Dos Sacramentos
Ministro: O que deve ser examinado?
Discípulo: Se a pessoa é verdadeiro membro de Cristo.
Dos Sacramentos
Ministro: Por quais evidências alguém pode saber isso?
Discípulo: Se possui fé e arrependimento, se tem sincero amor pelo próximo e se mantém a mente livre de ódio e malícia.
Dos Sacramentos
Ministro: Você exige que a fé e a caridade sejam perfeitas?
Discípulo: Devem ser sinceras e livres de hipocrisia. Contudo, seria inútil exigir perfeição absoluta, pois tal perfeição não será encontrada no homem.
Dos Sacramentos
Ministro: Então a imperfeição que ainda temos não impede nossa aproximação?
Discípulo: Ao contrário. Se fôssemos perfeitos, a Ceia já não teria utilidade para nós. Ela é auxílio para nossa fraqueza e apoio para nossa imperfeição.
Dos Sacramentos
Ministro: Há outro fim proposto por esses dois sacramentos?
Discípulo: Sim. Eles também são marcas e insígnias de nossa profissão. Pelo seu uso, professamos nossa fé diante dos homens e testemunhamos nossa concordância com a religião de Cristo.
Dos Sacramentos
Ministro: Como deve ser considerado aquele que despreza o uso dos sacramentos?
Discípulo: Como alguém que nega indiretamente a Cristo. Quem não se digna confessar-se cristão não merece ser contado entre os cristãos.
Dos Sacramentos
Ministro: Basta receber ambos uma vez na vida?
Discípulo: Quanto ao Batismo, sim, pois ele não deve ser repetido. Com a Ceia é diferente.
Dos Sacramentos
Ministro: Qual é a diferença?
Discípulo: Pelo Batismo, o Senhor nos adota e nos introduz em sua Igreja, para nos considerar membros de sua casa. Pela Ceia, depois de nos admitir entre seu povo, Ele testifica que continua a nos nutrir.
Dos Sacramentos
Ministro: A administração do Batismo e da Ceia pertence indistintamente a todos?
Discípulo: De modo nenhum. Ela é reservada àqueles a quem foi confiado o ofício de ensinar, pois alimentar a Igreja com a doutrina da piedade e administrar os sacramentos estão unidos por vínculo inseparável.
Dos Sacramentos
Ministro: Você pode provar isso pelo testemunho da Escritura?
Discípulo: Cristo deu aos apóstolos o mandamento especial de batizar. Na celebração da Ceia, ordenou que seguíssemos seu exemplo, e os evangelistas mostram que Ele mesmo a administrou como ministro público.
Dos Sacramentos
Ministro: Os pastores, a quem foi confiada essa administração, devem admitir todos indistintamente?
Discípulo: Quanto ao Batismo de crianças, não há lugar para distinção nesse ponto. Mas, na Ceia, o ministro deve cuidar para não entregá-la a quem é claramente indigno de recebê-la.
Dos Sacramentos
Ministro: Por quê?
Discípulo: Porque isso não poderia ser feito sem insultar e profanar o sacramento.
Dos Sacramentos
Ministro: Cristo não admitiu Judas, embora ímpio, à comunhão?
Discípulo: Sim. Mas sua impiedade ainda era secreta. Embora Cristo a conhecesse, ela ainda não havia vindo à luz nem ao conhecimento dos homens.
Dos Sacramentos
Ministro: O que deve ser feito com os hipócritas?
Discípulo: O pastor não pode afastá-los como indignos enquanto sua hipocrisia não for manifesta. Deve esperar até que Deus revele sua iniquidade e a torne conhecida a todos.
Dos Sacramentos
Ministro: E se o pastor souber ou tiver sido advertido de que alguém é indigno?
Discípulo: Mesmo isso não basta para impedi-lo de comungar, a menos que haja também investigação legítima e decisão da Igreja.
Dos Sacramentos
Ministro: É importante, então, que haja certa ordem de governo estabelecida nas igrejas?
Discípulo: Sim. Sem isso, elas não podem ser bem administradas nem devidamente constituídas. Devem ser escolhidos presbíteros para vigiar os costumes, guardar contra escândalos e excluir da comunhão aqueles que forem reconhecidos como incapazes de participar sem profanar o sacramento.